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23 junho 2012

AS CONSIDERAÇÕES SOBRE O AUTISMO: O IMPACTO DO RUMOR DA LÍNGUA


No dia 18 de abril, a Seção São Paulo teve o lançamento do livro
 Autismo(s) e Atualidade: Uma leitura lacaniana,
organizado por Alberto Murta, Analícea Calmon eMárcia Rosa e publicado em edição conjunta da Escola Brasileira de Psicanálise com aScriptum Livros (2012).A apresentação esteve dividida em três partes: na primeira, Margareth Ferraz analisou o
texto de Eric Laurent, “O que nos ensinam os autistas” (2012); na segun
da, Terezinha
 Natal Meirelles de Prado leu e comentou seu texto “Um certo saber 
-fazer com o
léxico”(2012) ; e, por último, Cássia Rumenos Guardado e outros participantes fizeram
intervenções.Margareth Ferraz destaca, desde o início, a nossa responsabilidade diante das psicoses, já que Lacan assinalava que não devemos recuar diante das psicoses, destacando anecessidade de também não recurarmos diante do autismo.E lembra que, para Laurent, essa categoria está se ampliando, ao mesmo tempo em que,no DSM-V, se tenta excluir a categoria de Asperger
 – 
fato que tem sido questionadopelos próprios autistas de altas habilidades que nela se reconhecem.A seguir, destaca que, com relação à medicina, não existem medicamentos para oautismo da mesma forma como não há também financiamento para pesquisas sobre oautismo. A ideia que tem orientado boa parte das investigações contemporâneas é a deque a enfermidade mental seria um déficit de medicamento. Laurent questiona essa
 posição, ao revelar que “toda metáfora q
ue se estabeleceu na língua comum entrepacientes e médicos, abordando a enfermidade mental como um desequilíbrio químico
que precisa ser compensado é falsa ciência, é o império de uma metáfora.” (2012: 20)
Laurent considera de extrema importância que os psicanalistas leiam os relatos dosautistas de altas habilidades, comentando alguns desses casos:1)Sean Barron
 – 
interessou-se pelas estações de rádio que, nos Estados Unidos, sãodesignadas por letras e fazia perguntas, tais como: Você pode captar a WWOL? Vocêpode captar a KDKA? Você pode captar a KUEN? Dez anos mais tarde, Sean revela:
“A sonoridade forte e precisa dessas letras apagava todas as minhas inquietações. Era o
único de toda a escola a ter esse saber. E, quando essas letras ressoavam na minha
cabeça, não me sentia mais inferior.” (2012: 21).
2)Temple Grandin
 – 
professora de zoologia numa universidade americana, que sededicou a construir um dispositivo que visa diminuir o sofrimento dos animais queserão mortos nos abatedouros.3)K. Nazeer escreveu um livro, a respeito de seus quatro companheiros quefrequentaram uma escola especializada para autistas. Todos, a exceção da mulher queera uma pianista dotada e se suicidou, encontram-se em cargos de destaque.

Laurent revela que, nos autistas, haveria uma tentativa de reduzir a um cálculo ou à
repetição de letras, o ruído da língua que equivoca sem parar: “Nesse espectro dos
sujeitos autistas, vemos, então, um cálculo da língua completamente separado do corpoe que, nesse sentido, não funciona como delírio psicótico, já que este sempre implica
algo do imaginário do corpo.” (2012: 23).
Dessa forma, enquanto houvesse o efeito da língua no corpo do psicótico (comoSchreber), com os autistas, haveria dificuldade de esses estabilizarem sua relação com ocorpo. (2012: 23)
E Laurent acrescenta que, “no espectro da experiência autista, o cálculo da língua não se
realiza sem o isolamento de um objeto: num certo ponto do espectro é um enforma, e,em
outro ponto, é um sem forma.” (2012: 25). Trata
-se de um objeto de gozo sem formaque se impõe ao corpo, o qual tem que ser extraído a qualquer custo, ainda que seja com
dor. Esses são objetos que, revela Laurent, anulam a distância: “o sujeito tem seus
objetos ao lado, seja qual for a distância que o separa deles. Ao entrar em seu mundo,esse objeto, apesar de não poder ser nomeado, desperta o rumor da língua, evidenciandoque, para além de todo cálculo, há algo intratável nos equívocos da língua. A criança,que não pode nomear o que existe no mundo, tapa seus ouvidos, porque a língua lhe
está gritando todos os equívocos possíveis.” (2012: 25).O autor destaca ainda que, com relação ao autismo, estamos diante do “... múltiplo da
língua e da letra em sua repetição, não sem o objeto sem forma. O objeto sem formareenvia
 – 
para além das formas do objeto parcial, o objeto a
 – 
a um acontecimento de
corpo fundamental no sujeito autista.” (2012: 26).
Laurent aponta que, nos casos de autismo, há repetição de um Um separado de umoutro, que não reenvia a um outro, produzindo efeito de gozo. E cita o caso de SeanBarron que, em sua lista de manipulação das letras, necessita que elas sejam uma a uma,
com separação nítida entre elas: “A lista que constituía o Um e
que nomeava umaestação de radio era composta precisamente da iteração de letras, sem que constituísse
um significante que reenviasse a um outro.” (2012: 27). Trata
-se, então, de uma listarepetida, sem possibilidade de reenvio para ninguém, ao que Miller nomeia de iteraçãopura
 – 
aquela que produz alívio, estabilizando a angústia
 – 
e é uma repetição que,segundo Sean Barron, lhe dava poder.Margareth destaca que se trata do gozo do Um, de gozo que não pode ser apagado, poisnão há apagamento dessa marca do acontecimento do corpo e cita o comentário deJacques-Alain Miller a respeito do caso Robert de Rosine e Robert Lefort.1) Robert retira todos os objetos da sala em que está com Rosine Lefort, ficando apenascom a mamadeira.2) Vai ao banheiro e grita, tendo a ideia de, um dia, cortar o pênis com uma tesoura deplástico. Segundo Laurent, uma castração real.3) Miller lê o caso de Robert como uma criança que está fundida ao real
 – 
um real ao qual não falta nada

Laurent assinala que, para crianças autistas, não há buraco na dimensão do real: há umatentativa, como no caso Robert, de um forçamento para a inclusão de um buraco, a fimde encontrar saída, diante de um gozo que invade o corpo.O autor assinala a importância de nós nos distanciarmos de uma abordagem psicóticaclássica ou atípica, discutindo os casos de crianças tratadas em instituições.1) Uma criança que só fazia barulho e não suportava a voz do outro e batia pauzinhos. A
analista, posteriormente, fez “ti
-ti-
ti” e o menino, em segui
da, deixa os pauzinhos em
suas pernas e faz “ti
-ti-
ti”, fato que levou ao deslocamento posterior para um “ta
-ta-
ta”.
2) Um terapeuta que contava histórias para as crianças autistas e psicóticas, as quaiscostumavam delirar com os relatos: um menino autis
ta poderia um dia dizer “Sou umlobo de merda!”, propiciando que, posteriormente, ele pudesse falar com o pássaro – 
 outro personagem da história
 – 
, modulando um assobio e possibilitando que, aospoucos, as palavras fossem introduzidas.Laurent destaca ainda que, embora haja coisas em comum entre o campo da psicose e o
do autismo, “não devemos considerar que são campos completamente distintos, comona perspectiva da psicopatologia, mas há uma especificidade que deve ser considerada.”
(2012: 32)Terezinha
 Natal Meirelles do Prado fez, a seguir, a apresentação do seu texto “Um certo
saber-
fazer com o léxico”, no qual parte da ideia de Lacan de que, se uma criança se
protege do verbo ou da voz, ao tapar os ouvidos ou a se recusar a falar, não podemosdizer q
ue está fora da linguagem.” (2012: 153).
E assinala que, na criança autista, a linguagem seria tomada como signo, ou seja, sem aequivocidade característica da estrutura significante. Maleval e Miller, lembra a autora,destacam que a fala não está ligada somente à estrutura de linguagem, mas também, à
substância de gozo e, “Assim, os signos
-ícones utilizados pelos autistas não se
inscrevem no corpo e não veiculam gozo vocal.” (2012:154). Esse fato impõe um
distanciamento entre esses autistas e aqueles tidos como de alto nível (Asperger), queconseguem comunicar-se e circular socialmente, mas que se mantêm isolados em
relação aos sentimentos. A autora assinala ainda que “haveria uma constante no tipo
clínico do autismo: retenção do objeto de gozo vocal e recusa a assumir a voz
enunciativa na fala.” (2012: 155), o que assumiria variações, como mutismo, ecolalia,
canções, fala desprovida de afeto etc.O ideal para os autistas é uma linguagem como deserto de gozo, uma linguagem semequívocos, revela Terezinha, na qual, há uma identidade entre as representações e ascoisas e a denominação seria fixa. Essa visão pode levar, segundo Maleval, à construção
de “Outro de síntese” – 
um outro que seja previsível, estável, organizado, tranquilizantee que funciona como uma ordem, um sistema de garantias. Em seguida, a autora cita
Laurent, quando esse revela: “no autismo, o retorno do gozo não se efetua nem no lugar 
do Outro, como na paranoia, nem no lugar do corpo, como na esquizofrenia, mas,
sobretudo, em uma borda.” (2
012: 157).A decorrência desse enfoque é que a direção do tratamento no autismo não levaria nema uma espécie de maternagem como suplência ao que não se efetivou, nem a medidas 
socioeducativas, visando à adaptação do sujeito a um funcionamento neurótico, nem àtentativa de fazê-lo passar a uma esquizofrenia, mas sim, se voltaria para a via dosinthoma, atentando para a construção de um saber-fazer com o real de gozo, pelopróprio sujeito.Terezinha apresenta o caso de Rafael, uma criança de nove anos, paciente de umhospital psiquiátrico e que apresentou mutismo até os quatro anos de idade, quando afamília descobriu que ele era capaz de falar e ler, com memória notável. O garoto tinhadificuldades no convívio com outras pessoas. Rafael não queria comer alimentocolorido. Só aceitava macarrão, batatas fritas e alimentos semelhantes. Não foi possívelingressar na escola, porque, àquela época, as crianças com essas condições eramrecusadas.O menino falava bastante sem variações tonais. Entretanto, depois de assistir a umapeça em que os direitos da criança foram discutidos, ele conseguiu se dirigir ao diretor


de uma escola próxima de sua casa, demandando: “Toda criança tem direito à escola.Por que não posso estudar aqui?” e foi admitido em classe de acel
eração. Rafael tinhadificuldade em se portar como aluno: ia para a frente da sala e tentava atuar como sefosse o professor.Terezinha comenta que Rafael articula muito bem as palavras, mas seu sistema não oinclui como emissor: cada resposta é o rearranjo dos textos anteriores lidos ememorizados. Esse uso da linguagem feito por ele não inclui um verdadeiro
endereçamento ao Outro, mas, ao contrário da aparência, funciona como um “Outro desíntese”. (2012: 163). E, finalmente, ela destaca que o tratament
o de um sujeito autistaexige estar atento ao que o próprio sujeito institui como sua solução, visando dar ordemao caos do mundo e acompanhá-lo na construção de uma nova borda, sem querer forçar,de nossa parte, uma alienação que não se efetuou (2012: 164).Na terceira parte, Cássia inicia seu comentário, assinalando a precisão do texto deLaurent em relação ao objeto de gozo sem forma que se impõe ao corpo
 – 
situação emque é preciso extraí-lo a qualquer custo, pois o real é aquilo em que não falta nada. Otratamento analítico oferece possibilidade diante de crianças que são deixadas à própriasorte.O autismo revela a importância do rumor da língua e da sensibilidade das crianças, oqual não diz respeito à uma simples sensibilidade auditiva, como destaca Laurent.Além dessas colocações algumas questões foram trazidas pelo público em alentadosdebates: A diferença entre autismo e psicose? A diferença do S1 do gozo para o autista?A questão da equivocidade
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o rumor da língua
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e a criança autista?


Leny Magalhães Mrech


fonte: http://pt.scribd.com/doc/92987072/NOVAS-CONSIDERACOES-SOBRE-O-AUTISMO

Um comentário:

  1. Oi amiga, passei aqui para conhecer o seu cantinho, amei tudo o que vi. Sou do grupo Blogueiras Unidas, número 2314. Já estou te seguindo. Ficarei muito feliz se puder me seguir também.

    Atelier EvArt
    http://atelierevart.blogspot.com.br/
    Bjinhus e muito sucesso...

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