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04 outubro 2011

Um surfista que estuda as células

SÃO PAULO - Ano passado, o biólogo Alysson Muotri foi interrompido enquanto trabalhava em seu laboratório na Universidade de Califórnia. Um senhor, vindo do Brasil, estava ali para vê-lo. O visitante que chegou de surpresa, sem marcar hora, era pai de uma criança autista e queria ver se "aquele brasileiro que trazia boas notícias" sobre o autismo era "real".
Muotri o convidou para entrar e conhecer o laboratório em que trabalha junto a outros 25 pesquisadores, quase metade deles brasileiros. Em meio aos microscópios e aventais brancos, o pai ouviu tudo, fez perguntas e foi embora, aparentemente satisfeito.
- Há muita gente falando que está fazendo muita coisa. Os pais ficam desconfiados de soluções que parecem mágicas - diz Muotri, 36 anos, paulistano criado no bairro de Pinheiros, junto com dois irmãos, um dentista e outro profissional de Educação Física.
A visita inesperada é um reflexo do assédio dos pais de filhos autistas, uma constante para o biólogo desde que ele passou a centrar força na pesquisa com a Síndrome de Rett, uma anomalia genética que compromete as funções motoras e intelectuais e provoca distúrbios de comportamento semelhantes aos do autismo.
Muotri recriou neurônios em laboratório usando células retiradas da pele de crianças com a síndrome. Ele utilizou um composto, chamado de IGF-1, que aumenta os níveis de insulina na célula doente. A droga conseguiu transformar um neurônio autista em um neurônio normal.
As conclusões do experimento foram publicadas na revista científica Cell e causaram impacto no mundo acadêmico. A "reversão" no estado da célula era, até então, algo inédito.
Passando duas semanas no Brasil, Muotri participou de uma palestra no Instituto de Psiquiatria do Hospital de Clínicas (HC) da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) na última segunda-feira. Organizado pela ONG Autismo & Realidade, o evento levou dezenas de pais a conhecer o pesquisador que prevê uma droga capaz de curar o autismo em pouco mais de dez anos.
- A pesquisa dele nos enche de esperança. É algo fantástico - diz Paula Balducci de Oliveira, presidente da Autismo & Realidade e mãe de uma hoje mulher autista de 24 anos.
Mais do que confiança cega, pais, parentes e amigos dos autistas têm dúvidas. Querem conhecer melhor os porquês da doença. Como surge? O que ocorre no cérebro dos filhos? Em Muotri, encontram alguém capaz de escutar, responder e conversar sobre a doença.
- Os pais estão sempre muito preparados. É algo que a gente compreende quando começa a trabalhar com a doença. Eles sabem muito dos termos técnicos e acompanham as pesquisas. São meio desconfiados até.
A desconfiança é parte da rotina do biólogo. Desde que deixou o Brasil ainda em seu doutorado, ele embrenhou-se nos grandes laboratórios de pesquisa norte-americanos. Lá, descobriu a realidade da pesquisa científica nos Estados Unidos. Uma rotina de competição e poucos amigos.
- Seu colega é seu colega. Não é seu amigo. Ele não vai freqüentar sua casa. Não é como encaramos as relações de trabalho no Brasil.
A lógica é simples. Em laboratórios de ponta, entre 30 a 40 pós-doutores, donos de currículos acadêmicos invejáveis e pesquisas promissoras, disputam as mesmas fontes de financiamento.
- Ninguém pode e ninguém quer perder tempo porque todos estão muito focados nos seus projetos. Ninguém vai colaborar com sua pesquisa porque você é um cara legal. Só vai existir colaboração se a pessoa acreditar que a sua pesquisa pode dar resultado e ela ganhar com isso - diz Muotri.
Pode parecer cruel em um primeiro momento, mas o sistema americano vai premiando quem consegue resultados. São os resultados que trazem investidores para uma pesquisa. Com os recursos, é possível trazer mais profissionais e ter mais equipamentos para o laboratório que, consequentemente, passa a produzir mais pesquisa. O ciclo premia os melhores profissionais e as melhores equipes.
- Fiquei um ano aqui na Califórnia pesquisando. Com o resultado passei a gerir meu próprio laboratório e minha equipe. Por mais que eu tivesse bons indícios, se não tivesse resultados, alguém da faculdade ia chegar pra mim e dizer "obrigado pelo período conosco, mas você não tem nível para estar na nossa instituição". Isso é muito comum e é encarado com naturalidade.
Muotri acostumou-se ao ritmo americano. Não antes sem enfrentar o dilema dos pesquisadores brasileiros que iniciaram os estudos aqui e foram para fora.
O biólogo questionou-se sobre um possível retorno. Havia feito um pós-doutorado de renome e poderia ocupar uma posição de destaque em qualquer universidade brasileira. Além, é claro, de estar próximo da família e amigos. Muotri decidiu ficar.
- Contribuo com a ciência e com o Brasil mais pesquisando do que ensinando. E para pesquisas, a faculdade americana me dá uma estrutura que não teria aqui - explica.
O cientista vive uma rotina espartana em San Diego, cidade de 1,3 milhão de habitantes, onde mora e trabalha. Começa o expediente às 8h e vai até às 20h na maioria dos dias, com algumas esticadas de horário.
- Como a estrutura está disponível o dia todo, alguns colegas acordam mais tarde e trabalham até de madrugada. Sou mais convencional nesse ponto - diz.
Nos finais de semana, passa o tempo com a mulher, a também pesquisadora e especialista em microbiologia Carolina Nasser Marchetto. O casal chegou a ficar um ano morando em cidades diferentes, quando Carolina concluía seu doutorado no Texas.
Hoje, dividem o mesmo teto. A vida em San Diego trouxe dois hábitos novos na vida do biólogo. A Universidade da Califórnia tem o Oceano Pacífico como vizinho. Um convite para cair na água.
- Nunca tinha surfado. Vi o pessoal indo no intervalo do trabalho. Fui meio de farra e gostei.
O biólogo também descobriu a ioga, vencendo um preconceito que ele mesmo tinha.
- Achava coisa de 'tio' isso. Mas as duas me fazem bem. Me energizam mesmo. Acho que penso melhor depois de fazer.
Com artigos publicados nas principais publicações científicas americanas como a "Cell" e a "Nature", Muotri está no grupo dos principais cientistas que pesquisam as funções do cérebro humano. É também um dos principais estudiosos sobre distúrbios neurológicos, como o autismo.
Neste ano ele foi indicado para o Science and Public Leadership Fellows 2011, uma das mais renomadas incubadoras de inovação do mundo. Muotri dividiu palestras e cursos com pesquisadores como Raul Rabadan, um dos cientistas responsáveis por mapear o vírus da gripe suína e Adrien Treuil­­lê, que desenvolveu simulações em computador capazes de entender e buscar medicamentos para diferentes tipos de doença.
Integrante da elite da ciência mundial, Muotri pode chegar ainda mais ao topo, se conseguir estabelecer com as células do autismo clássico, o mesmo resultado que conseguiu com os neurônios da Síndrome de Rett: conhecer as causas da doença e chegar a uma droga que "conserte" a desordem celular, causadora dos distúrbios.
O desafio não é pequeno, dizem pesquisadores que atuam na área. A Síndrome de Rett é uma doença monogênica, isto é, o gene causador da doença é um só, conhecido. No autismo há uma profusão de células envolvidas e fatores não-genéticos como o ambiente e a gestação influem na doença.
- Eu mesmo era cético com as possibilidades. Mas os resultados até agora estão sendo muito bons. Os mesmos resultados que tínhamos com o Rett estão aparecendo. É claro que isso levará tempo e esforço - afirma Muotri, com a certeza de que muitas ondas ainda estarão no caminho.
Fonte:O Globo

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