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14 junho 2011

Um cão-guia até o mestrado


Como a amizade com uma cadela labrador ajudou Daniel Jansen, o primeiro autista brasileiro a defender sua tese numa universidade

Cristiane Segatto

A amizade entre Daniel e Luana era uma dessas hipóteses difíceis de se concretizarem. Ele, um rapaz autista, avesso a qualquer contato físico, repelia todas as investidas dela, um filhote de cão labrador cheio de lambidas para dar. Mas esse encontro rendeu frutos. No fim de fevereiro, Daniel Ribeiro Jansen Ferreira, de 32 anos, defendeu sua dissertação de mestrado no Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Convenceu a banca e foi aprovado.

Os especialistas que acompanham autistas não têm notícia de outro brasileiro que tenha ido tão longe nos estudos. Dificuldades de planejamento e convivência costumam emperrar a evolução escolar deles. Poucos concluem a faculdade.

Daniel foi além. Luana teve grande responsabilidade nisso. Conheceram-se há três anos, quando ela era recém-nascida. Daniel, que sempre evitou abraços e beijos humanos, recebeu um tratamento de choque: lambidas, afagos e fidelidade da cadela brincalhona. No começo não gostou. Fugia do assédio dela. Com o tempo, foi aprendendo a entender o contato e a se habituar a ele. Ficou mais aberto para o mundo.

“Luana deu estabilidade emocional a meu filho. Sem a cachorra, acho que ele não teria conseguido concluir o mestrado”, diz Silvia Ribeiro Jansen Ferreira. Ela ficou tão impressionada com o resultado que decidiu fundar uma ONG para levar a terapia com cães a vários tipos de paciente: autistas, portadores de paralisia cerebral, deficientes visuais etc.

À primeira vista, Daniel é um universitário como muitos outros: bermuda, camiseta, tênis, óculos. Parece um pouco tímido, inseguro. Conforme a conversa se desenrola, percebe-se que ele tem algo diferente. Os olhos pequenos escondidos atrás das lentes grossas encaram o rosto do interlocutor como qualquer pessoa faz. À medida que expressa seu raciocínio – de forma clara e fluente –, Daniel baixa um pouco a cabeça e leva a mão à testa. Parece estar diante de um sol forte. O incômodo se torna evidente.

O rapaz sofre da síndrome de Asperger – também conhecida como autismo de alto desempenho. Trata-se de uma forma leve do distúrbio. Não há comprometimento das funções intelectuais, mas os portadores costumam ter um padrão restrito de interesses e atividades. Algumas habilidades são muito mais desenvolvidas que outras. Daniel aprendeu a ler sozinho aos 4 anos folheando um fascículo sobre anatomia humana. Por outro lado, seu desempenho em interação social é baixo. O contato olho no olho e o entendimento das reações das pessoas são prejudicados. “Um simples ‘oi’ pode ser interpretado como uma paquera”, diz o psiquiatra Cesar de Moraes, diretor-clínico da Associação para o Desenvolvimento dos Autistas em Campinas.

O trabalho da entidade foi fundamental para que Daniel pudesse cumprir as exigências do mestrado. Ela lhe deu apoio psicopedagógico para ajudá-lo a superar os obstáculos. Um dos principais é a dificuldade de planejamento. O rapaz, como outros portadores da síndrome, não consegue antever metas e exigências e executar as tarefas necessárias para cumpri-las. Também sofre muito quando precisa sintetizar num texto aquilo que aprendeu e pesquisou – uma habilidade fundamental para quem escreve uma dissertação.

Em outro aspecto, porém, Daniel se destacou. Mais que os outros alunos, ele demonstrou grande capacidade de percepção de detalhes. Enquanto a maioria das pessoas enxerga o todo, autistas como ele se fixam em minúcias. Foi assim que conseguiu notar mínimas diferenças em crustáceos de poucos milímetros que vivem no litoral norte de São Paulo. Um espinho aqui, um formato mais alongado ali, e lá estava Daniel apontando à orientadora que aquela era uma espécie, e não outra. O resultado foi a identificação de 30 espécies que vivem em algas e são importantes para o equilíbrio ecológico da região.

“Daniel não recebeu nenhum favorecimento por ser autista. Fui atenciosa com ele, mas teve de cumprir os mesmos passos dos outros alunos”, diz a orientadora, Fosca Pedini Pereira Leite. O rapaz não fez grandes amigos entre os colegas do curso. “Meus relacionamentos não têm seguimento, são sempre truncados”, diz. A dificuldade de lidar com o novo sabota suas tentativas de aproximação. “Quando me acostumo com a pessoa, ela já foi embora.”

O rapaz tem feito da internet uma janela para o mundo. Participa de 86 comunidades no site de relacionamento Orkut. Tem interesse em vida marinha, jogos eletrônicos, astronomia e na incrível saga de Guerra nas Estrelas. Os contatos virtuais, no entanto, não têm sido mais fáceis que os da vida real. Já foi expulso de várias comunidades on-line. “Fico bravo, xingo ou sou sincero demais”, afirma.

Em letras maiúsculas, o código da internet que equivale a um grito, Daniel escreveu há pouco tempo que o maior desafio de sua vida é “arranjar uma namorada ou algo equivalente”. Ele reafirma: “Nunca namorei. Até hoje só tive interesses platônicos. Tem autista que não consegue fazer mestrado, mas tem namorada. Eu sou o contrário”. O sucesso de Daniel na universidade poderá atrair algumas candidatas. Ele não faz grandes exigências. Mas um pré-requisito é fundamental: gostar de cachorros.
Fonte:http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EDG82395-8055-513,00-UM+CAOGUIA+ATE+O+MESTRADO.html

Um comentário:

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